Eu no mundo da bola

Publicado: março 20, 2014 em Uncategorized

Um Real Madrid na minha Vila

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Com meus pais e irmãos

Pouco tempo após voltar da experiência de dois anos para morar na Espanha meu pai comprou barracas de frutas na feira livre e com ajuda, esforço e suor foi melhorando até que adquiriu uma casa com terreno na Vila dos Remédios e quando fomos conhecer, minha mãe se assustou, já que era quase terreno baldio com cerca de latas velhas e arame farpado com dois cômodos de total rusticidade, mas como os tempos eram muito difíceis meio a contragosto ela aceitou.

Assim deixamos a solidária hospitalidade de meus tios Andrés e Maria na Vila Leopoldina e nos mudamos para essa casa própria, a primeira e única de meus pais, que até os dias de hoje, depois de várias reformas, continua sendo a mesma acolhedora casa familiar que eles habitam na Rua Manuel de Carvalho na Vila dos Remédios.

As barracas de feira de meus pais estavam distribuídas quase por toda a geografia da cidade de Osasco, cada dia da semana era uma rua e ainda hoje sou capaz de citar todas em seu respectivo dia, são tantas histórias, tanta gente que conheci, amizades que nasceram e se consolidaram.

Para quem conhece a cidade cito a relação dos bairros em que tivemos nossabarraca na ordem dos dias da semana começando pela terça feira: Jardim de Abril, Piratininga, Largo de Osasco, Vila dos Remédios, Bela Vista e Helena Maria, em cada lugar uma lembrança, em cada feira trabalho e amizade.

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Com Minando e turma

Eu até gostava de ir porém as vezes me resistia devido ao esforço da carga horária que dificultava me dedicar e render no futebol; já na feira do varejão do Ceasa, mesmo sendo aos domingos, gostava muito de ir, ali era o responsável e levava comigo a turma do bairro.

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Com Minando e sua esposa Shirlei

Naquela rua comecei uma relação que teve importancia fundamental na minha vida, a amizade com Minando, três anos mais velho e que já aos 15 anos estudava na Academia de Policia; fomos realmente inseparáveis durante toda a adolescencia ao ponto de que cheguei a pensar passar o exame para entrar na Academia. Outros grandes amigos na Vila foram Edson Mendes, Ismael e Nelsinho.

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Com Dete

Eu sou muito reservado mas minha mãe afirma que fui namorador e ficava sempre na dúvida mas sabia que realmente minha paixão desde quando nos conhecemos pequenos na escola era por Maria Bernadete Gomes, a Dete que me chamava muito a atenção pela beleza de seu rosto e o doce impacto de seus olhos verdes além de ativa participante das brincadeiras, ela é filha de portugueses assim éramos um casal ibérico. Nessa época eu vivia dizendo querer completar 18 anos para me ver livre e ir onde quisesse. Mal sabia eu que a surpresa que teria ao chegar a maioridade era o serviço militar.

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Porta bandeira do Jóia Rara

Desses doces anos na Vila dos Remédios guardo com muita força as lembranças do bloco carnavalesco Joia Rara situado em um pequeno espaço na rua frente ao Supermercado Castanha na Praça Santa Edwiges. Um ano desfilamos com o tema jogos de azar e havia uma ala dedicada ao futebol, fui de porta bandeira do Flamengo, era a época daquele esquadrão de Zico e Júnior e, por exigência do desfile, vesti a camiseta rubro-negra.Todos os anos o bloco marcava história na hora da concentração no largo em frente à Igreja, nos desfiles pelo bairro e no carnaval de rua na Avenida Tiradentes em São Paulo.Houve uma ocasião, no carnaval de 1980, que o bloco homenageava o palhaço Torresmo e conseguimos vencer, na categoria de blocos o carnaval de São Paulo foi a primeira e única vez que um bloco superou a Gaviões da Fiel, que naquela época a Gaviões também era bloco e a exceção desse venceu 12 dos 13 carnavais em que participou.

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Samba com Zeca e Fernando

Dias depois membros da diretoria da Gaviões sabedores que o Joia Rara era uma turma de corintianos, veio até nossa sede felicitar pela vitória. Nessa turma destacava também a presença de Dete,seus irmãos Zeca e Fernando com os quais criei uma forte relação de amizade pessoal e cumplicidade esportiva já que de vez em quando íamos juntos assistir aos jogos do Timão.

O meu encontro com o Real Madrid ali nos Remédios foi um choque de realidade guiando meus primeiros passos para entrar no mundo da bola. Tendo a várzea como escola e até como estádio, que melhor presente podia pedir um boleiro como eu obsessivo nessa idade de tantos e tantos sonhos.Por essa razão sempre considerei que cursei uma verdadeira universidade da vida no Real Madrid Club, time da competitiva várzea paulistana situado no centro do bairro, logo depois da ponte da Marginal, na Praça Nossa Senhora dos Remédios numero 4.

Ali vivi experiências únicas que me serviram e orientaram para sempre, tanto como dirigente esportivo, animador cultural e como disciplinado atleta; anos de vivências e aprendizados constantes, circulei por outros clubes, mas sempre tendo o Real Madrid como berço e referencia maior, foi sendo membro do Real Madrid que vivi minha experiência nas categorias de base do Corinthians no ano 1977 tendo os professores Padilán e Joaquim Santos como técnicos e cujas peripécias relatei no livro.

Carterinha do Real Madrid

Ao contrário do que possa parecer o Real Madrid Club não foi criado formalmente para homenagear seu homônimo gigante espanhol e nem mesmo pela colônia espanhola, o clube foi fundado por um brilhante jogador do bairro chamado Aníbal Securi que hoje deve andar pela casa dos 74 anos e que foi um médio de categoria e jogo elegante.

Criou o clube no dia 3 de março de 1963, mesmo ano do meu nascimento, que embora sendo santista não se atreveu a colocar o nome do Santos por ser aquele um bairro quase exclusivamente de corinthianos. Quem ainda guarda as camisas dessa gloriosa etapa é outra lenda viva do time e conhecido pelo apelido de Tostão.

O nome surgiu quase como uma metáfora, naqueles anos uma das grandes rivalidades mundiais eram o Santos de Pelé e o Real Madrid de Di Stefano, pela indiscutível qualidade desse conjunto optou pelo nome da equipe espanhola para indiretamente homenagear o seu Santos o único capaz na época de enfrentar de tu a tu aquele esquadrão.

O clube desde seus primeiros tempos teve vocação para ser uma espécie de seleção do bairro, todo bom jogador que despontava em suas proximidades geográficas, era convocado para vestir sua camisa, nessa função de caça talentos brilhou quem já tinha sido um bom jogador conhecido por Foca que atuava como uma espécie de sensor de craques e os convencia para ir ao Real.

José Angel, é o nome do celebre Foca, ele foi um jogador amador de inegável categoria na posição de médio volante, encerrou sua carreira no ano 1978 e foi com ele que começo minha história no Real, junto com Severo di Ferreira, chamado Tinha e pelos mais próximos sempre apelidado de Baiano, o qual tive como companheiro na maior parte de minha carreira como jogador.

Com Foca a única vez que joguei no time foi em 1980, quando ele já pendurara as chuteiras e participamos de um jogo organizado pelo deputado federal Jose Camargo residente em Osasco, foi um evento especial para comemorar o aniversário da cidade de Bom Jesus de Pirapora, esse dia também joguei ao lado de Tinha como goleiro com a camisa 1 e eu de lateral direito com a camisa 2. Foi ali que Foca percebeu insuficiências em meu estilo de jogo e me instruiu para que mesmo nessa posição defensiva saísse jogando com a bola e com a cabeça levantada para localizar o companheiro melhor posicionado para lançar o time ao ataque. Foi a única vez que jogamos juntos e o Real com uma escalação diferenciada já que nesse mesmo dia o time principal participava da final do campeonato organizado pela Secretaria de Esportes de São Paulo.

Prefeito Francisco Rossi de Osasco entrega medalha de campeões da Copa Primavera pelo Real Madrid

Assim iniciei minha caminhada como jogador de futebol de campo no denominado segundo esquadro do Real Madrid. Entre os jogadores com o qual formei equipe além do goleiro e parceiro Tinha estavam Zé da Bucha, Ronaldão, João Mauricio, Minando, Careca, Messias, Peru, Fernandinho, Florindo e Celsinho, este irmão do famoso ponta esquerda Sidney que se profissionalizou no São Paulo e jogou na seleção brasileira.

O Real não tinha campo próprio e jogava no campo da Portuguesinha onde hoje é um colégio de crianças especiais, também no denominado campo dos Coroinhas que pertencia a Igreja. Era um time popular que invariavelmente levava duas Kombis cheias de torcedores e nos jogos matinais dos domingos reunia sempre mais de 1500 pessoas para ver os clássicos da rivalidade local..

No ano seguinte, em 1981, tendo como presidente Fernando Portela, o Real Madrid se aventurou em um autentico desafio para um time de várzea e comprou os terrenos para a sede própria, porém isso obrigou a uma total economia e inicialmente se decidiu suspender o futebol de campo por ser o de maior despesa.

Nesse momento Tinha com sua loja de sapatos e eu que trabalhava no mercadão, com muitas dificuldades bancamos e mantivemos o time pagando as bolas, reposição de fardamentos, doávamos o que ganhávamos jogando futsal no Água Branca. Praticamente tudo o que recebíamos era para o Real e o time manteve a qualidade, assim pratiquei a função de dirigente tendo pouco mais de 18 anos.

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Entrada da sede própria do Real Madrid

Por essa razão, diferentemente da maior parte dos times da várzea paulistana o Real Madrid conseguiu a insólita proeza de construir a própria sede dispondo de um espaço de mais de 1000 metros quadrados com sua quadra de futsal e salão de festas, resistindo firme em uma das áreas de maior valorização e especulação imobiliária.

Em 1985 continuava presidido por Fernando Portela e houve um processo de renovação da diretoria e foi ai que a história deu um novo passo, eu e Tinha assumimos o papel de ativistas cabos eleitorais. Foca que já fora tesoureiro e secretário, era nosso candidato a presidente, foram eleições muito disputadas e na qual se aprendeu para valer, o processo eleitoral era indireto, onde os 200 sócios pagantes escolhiam conselheiros e estes o presidente.

Foi difícil obter a vitória nessa campanha partindo da oposição, com muita mobilização voto a voto Foca conseguiu a presidência, iniciando uma renovação. Em 1987 foi reeleito por 16 votos de diferença e ao final do mandato fez o sucessor Manuel Soares apelidado Chumpitaz por ser parecido com o jogador peruano que depois foi substituído por Tinha que se mantém até hoje.

O clube enfrentava um inimigo maior de aparência abstrata e invencível, porém que tudo ocupava e transformava, era o incessante crescimento da cidade que tudo pretendia comprar e que fazia dos campos da periferia lugar preferencial para a especulação imobiliária e assim ante as dificuldades e escassez de campos começaram a priorizar o futebol de salão.

Além disso, a várzea se transformava e determinadas disputas começavam a ser ligeiramente perigosas já que o pessoal que a integrava ia mudando no mesmo ritmo dos bairros periféricos. Ainda nos lembramos de um dos últimos jogos memoráveis contra a Portuguesinha, time que mesmo auspiciado pela poderosa colônia portuguesa local também acabou por sucumbir e deixar seu campo.

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Wladimir em visita a sede do Real durante eventos dos 40 anos

No futebol de salão, os jogadores conseguiam tempo para jogar em outros times, no Real nunca tiveram bicho ou salário, as vantagens eram a entrada nos animados bailes e de vez em quando cerveja e churrasco para comemorar, os que jogavam em outros times recebiam compensação econômica. Os bons jogadores de várzea andavam com as chuteiras de um lado para outro, sempre na espera de que surgisse algum jogo extra.O clube passou por dificuldades no ano 1992 tendo seus bens econômicos confiscados pelo malogrado Plano Collor, resistiu e superou as penúrias, com o tempo até o futebol de salão ia ficando inviável e as últimas disputas foram em 1995 depois tudo mudou e até os bailes dominicais da juventude se perderam e nasceram os famosos bailes de casais com pessoal mais maduro e em cujos cenários matrimônios se formalizaram.

O Real ainda conseguiu renascer no futebol de salão e participou em fase recente dos campeonatos na mesma categoria do Corinthians, Palmeiras etc. e a quadra do Real entre esses times é chamada de kitnet em alusão a seu tamanho compacto. Nesse período, meu filho Lucas chegou a jogar na categoria fraldão.

Além de outros esportes o Real teve destaque na ginástica olímpica tendo entre seus participantes na função de professora de educação física a conhecida atleta Mariette que depois optou pelo meio artístico e se fez famosa assistente de palco no programa Viva a Noite de Gugu Liberato na SBT, nasceu com ela a assistência de palco e tanto sucesso fez que virou ícone televisivo na época e chegou a ser capa da Playboy.

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Neto escalado como garçom solidário

Hoje, o trabalho do Real e sua gente se destaca muito no campo social. Os padres da Paróquia são sócios honorários e a própria paróquia já foi patrocinadora da equipe. Como clube e paróquia distam poucos metros, o Real tem sido habitual parceiro da igreja em suas campanhas sociais e seus párocos sempre foram fiéis torcedores.

Por outra parte, também as instalações do clube serviram para aulas de informática e se calcula que 15 mil pessoas do bairro tenham freqüentado seus cursos e obtiveram aulas de inclusão digital gratuitas.

Time dos garçons solidários

Em 1998, o pessoal do Real junto com outras pessoas, em uma área próxima onde fora a sede do clube Ilha Verde, fundou uma escola de crianças especiais, hoje assumida pela AMME (Associação Mantenedora de Mães Especiais), atualmente o local desde 2006 virou sede própria e realiza eventos para arrecadar, a entidade esta localizada na Avenida dos Remédios, 1157.No dia 28 de novembro Salão Nobre do Corinthians organizamos um jantar beneficiente com a renda revertida para as ações da AMMES com apoio da agencia Colmeia e de meu amigo Neto que junto com outros jogadores e comigo mesmo fizemos a função de garçons durante o solidário evento.

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Times do master do Corinthians e veteranos do Real Madrid em 2003

Mesmo sendo diretor do Corinthians, conseguia tempo e continuei frequentando o Real inclusive colaborei em um inesquecível jogo comemorativo dos 40 anos do Real em 2003 que disputou com o máster do Corinthians no campo do Espada de Ouro, participaram Zé Maria, Wladimir, Geraldão, Tupãzinho, Marcio e João Paulo, também se fez presente Zenon que ao estar contundido não entrou em campo.Com o mesmo carinho os veteranos do Real fazem um evento anual e tendo em conta a identificação de quase todos eles como parte da fiel corintiana, esta vez o evento foi no restaurante do Corinthians. O grupo é chamado de VVR (Velhinhos Vindos do Real) e ficamos ali até altas horas revivendo, emocionados, histórias de boleiros.

De vez em quando até tentava jogar um pouco com os veteranos, mas o físico já não acompanhava e parei por completo, mas vira e mexe apareço nos eventos do clube ou da paróquia quando se trata de convocatórias beneficentes ou patrimoniais como a recente torre para a igreja participando da chamada solidária do pároco e amigo da família Padre Agostinho.

veteranos
Duas escalações dos veteranos do Real Madrid nas quais fiz parte

O companheiro Foca continua como ativo colaborador nas atividades sociais do clube e Tinha se mantém de presidente clube, é também presidente estadual do PHS – Partido Humanista da Solidariedade -, meu pai quando o encontra pelas ruas do bairro sempre brinca cobrando que devia ser logo eleito vereador, pois foi três vezes candidato.

Uma das dificuldades de somar votos é o problema que os eleitores de uma mesma rua se dividem entre o censo de duas cidades, São Paulo e Osasco, mas ele afirma que seu partido hoje tem acesso aos palácios de governo, dá continuidade a brincadeira dizendo que o Real já subiu comigo a rampa do Planalto acompanhando Lula e com ele também já subiu a Rampa dos Bandeirantes acompanhando os governadores.

Carterinha do Água Branca

Outros times

Em minhas andanças pelo futebol amador entrei como juvenil do futebol de salão e foi a primeira vez que recebi um salário como jogador de futebol e até havia bichos nas vitórias. O time pertencia a empresa Moinho Água Branca, jogava com meu parceiro Tinha no gol e até o filho do dono da empresa o chinês Kim também fazia formava parte.

Chegamos a ser federados e obtivemos um Vice campeonato perdendo a final por 2 a 1 para o Círculo Militar e em outra ocasião obtivemos a terceira colocação, lembro que eu e Tinha sendo desse time chegamos a ser convocados em 1980/81 para a seleção paulista juvenil de futsal.

ilha
Time do Ilha Verde

Também com Tinha joguei futebol de salão no famoso Ilha Verde de Osasco, conquistando vários troféus durante a participação em três campeonatos no Salão da Criança no Anhembi. Ao terminar a etapa do Ilha Verde foi quando nos integramos plenamente no time de futsal do Real Madrid.

Equipe campeã da Copa Gradina
Time campeão da Copa Granadina

Mais adiante ainda tivemos tempo de formar um time na padaria do amigo, vizinho e também jogador Wilson Pele, estabelecimento próximo a casa de meus pais e onde meu irmão Tadeo trabalhou dos 11 aos 14 anos de idade. A padaria ainda existe, isso foi em 1988 e fomos campeões da Copa Gradina de futsal na qual fui artilheiro do time campeão.

Andrés foi artilheiro do time campeão
Recebo a medalha de artilheiro da Copa Granadina

Por aquela época ainda integrei o time da empresa Tajo dedicada a equipamentos de som e com loja na Rua Santa Ifigênia. E em 1989, novamente com Tinha passamos a jogar no time da empresa Newboard de Porto Feliz, do ramo da borracha e fornecedora das grandes montadoras de carros, a cidade dista 100 km da Vila dos Remédios. Eu ia direto de Campinas onde já trabalhava.

O time era muito bom, às vezes brincávamos mais da conta arrumando confusões, como por exemplo, em Pontal perto de Ribeirão Preto, cidade de muitas usinas e plantações de cana, na disputa do campeonato paulista de futsal, ginásio lotado o time ia ganhando e na comemoração de um gol Peru fez algum gesto que rebelou a torcida adversária e no intervalo fomos apedrejados nos vestiários e decidimos não voltar.

Praticamente tivemos de sair correndo da cidade, escoltados e levando muitos golpes no caminho para o carro Monza, que nos esperava e que também recebeu muitas pedradas. Anos depois Tinha voltou à cidade como representante do PHS e comentou o fato com o atual prefeito que confirmou ter conhecimento dos fatos da época.

O bairro de Vila dos Remédios sempre destacou por revelar craques de futebol e entre os muitos uma menção especial para Amadeu, que até hoje mora em um sobrado ao lado da casa dos meus pais, ele é irmão de Nelsinho meu grande amigo da infância, foi ponta esquerda no júnior do Nacional da capital e venceram a Copa São Paulo de 1972 contra o Internacional do jovem Falcão.

Sei que também jogou no Brasil de Pelotas, depois Araçatuba e Noroeste de Bauru onde chegou a jogar ao lado de Jairzinho Furacão campeão com a seleção em 1970 no México. Também jogou futebol de salão com a turma do Real, Espada de Ouro e Água Branca, além de ter sido nosso companheiro no campeonato Inter-padarias, atualmente me informaram que mantém uma escolinha de futebol na Vila dos Remédios.

Outro craque, considerado por todos o maior jogador da região foi Sidney. Começou na categoria dentão da Portuguesinha e do Serva (Sociedade Recreativa Vila Anastácio) e José Poy que fora goleiro do São Paulo que em sua função de olheiro o levou para o São Paulo donde se profissionalizou e chegou a seleção. Todos os irmãos foram muito bons de bola, entre eles Celsinho excelente atacante e que foi meu companheiro no Real.

No Mercadão com a bola toda

Time titular do Rodriguense
Time titular do Rodriguense

Outra feliz experiência como jogador foi no Mercadão onde trabalhei como vendedor na empresa de meu tio Juan chamada Sánchez Distribuidora de Frutas e minha passagem por esse emprego seria incompleta se o onipresente mundo do futebol não fizesse parte, também ali deixei meu nome marcado na categoria de atleta amador, fui convidado por Eduardo Santos Branco, dono do box vizinho, também dedicado ao comércio de frutas.

A associação de permissionários do mercadão organizou um campeonato de futsal no ano 1983 e convidaram os que tinham box na parte externa a que participaram formando um time, as restantes equipes eram formados pelas ruas internas localizadas no mercadão.

Como norma se exigia que todos os times tinham de estar formado por jogadores vinculados aos boxes exceto um por equipe para reforçar e dar mais nível competitivo as disputas, a equipe dos boxes externos se chamou Rodriguense com a camisa amarela e adotaram o mesmo nome de um time amador da cidade de onde procediam os patrocinadores.

O patrocinio era do pessoal do setor de frutas do município de Candido Rodrigues concretamente Alemão, Chacrinha e Eduardo, das empresas Della Vechia e JEI Frutas, todos com postos vizinhos a Distribuidora Sanchez e mesmo que eu já não trabalhara na mesma, pois tinha mudado para Campinas me chamaram para reforçar o time como permitia o regulamento.

E como reforço me esforcei ao máximo junto aos meus companheiros de equipe Dede, Carlinhos, Nenê e também integrou a equipe Ronaldo, apelidado de Pipico que naquela época era motorista em São Paulo e depois viria a trabalhar comigo em Campinas na área de vendas, os jogos se realizavam em horário vespertino nas quadras João Boemerno, ali perto, no bairro do Brás, ganhamos o campeonato.

Os campeões do Rodriguense
Campeões pelo Rodriguense

Eduardo atualmente continua com seus armazéns de frutas na Cantareira, porém simultaneamente virou um próspero fazendeiro com produtiva propriedade no Paraná. Recentemente me relatou um fato curioso pois junto com esposa e filho fizeram uma viagem a Madrid já que sua filha fora diretora do Banco Real e ao ser adquirido pelo Santander foi convocada para uma temporada formativa em Madrid.

Eduardo ante a loja de roupas em Ávila
Eduardo ante a loja em Ávila

Em seus passeios foram conhecer a monumental cidade de Ávila e de repente se encontram com uma loja de roupas chamada Andrés Sanchez, sabiam que isso foi resultado da casualidade já que por lá esse nome e sobrenome são habituais, mas não resistiu à tentação de fazer uma foto frente ao estabelecimento e meu enviou como lembrança.

A fase de Campinas

No livro relatei muitas de minhas vivencias durante os anos que morei em Campinas porém pouco escrevi sobre minha fase campineira de atleta e já desde o inicio o futebol se fez presente, fui diretor e presidente da entidade Assoceasa, o sindicato dos permissionários de boxes, como companheiros de diretoria tinha comigo Paulo Oya hoje vereador pelo PDT de Campinas e que já foi diretor do Guarani, foi presidente do Conselho e pela sua idade e capacidade conciliatória lhe tinha muito respeito, além de ser pai de Nico meu companheiro no futebol, tinha por hábito trazer mel de presente e quando me presenteava, sempre na brincadeira, devolvia dizendo que era diabético e o homem sempre ficava meio na dúvida pois afinal levava comigo o presente, outro de meus grandes amigos foi Roberto apelidado de Boquita e inseparável companheiro no futebol e também minha amiga Nilza Fiuza secretaria da entidade e que junto com sua família muito me ajudou a integrar-me na cidade.

E para completar o panorama da rivalidade campineira também tive um grande amigo vinculado a Ponte Preta, aliás amigo e professor de vida, José Antônio Fernandes da Silva, uma das figuras mais populares do Ceasa de Campinas apelidado Zé Mineiro, proprietário da empresa Cerealista Mineiro cuja localização é tão antiga como o próprio Ceasa, inclusive até melhor que eu descreve com profusão de detalhes minha passagem pela entidade e pela cidade e expõem os fatos com a autoridade de seus 62 anos de uma exemplar trajetória de vida iniciada profissionalmente com seu pai no antigo mercado central de Campinas na rua Benjamim Constant no centro e posteriormente no Ceasa situado na Rodovia Dom Pedro no bairro dos Amarais.

Foi membro fundador da Assoceasa e integrando sua diretoria desde o primeiro dia havendo ocupado vários cargos e representando a entidade no Conselho do Ceasa, destacando também como fundador da entidade a nível nacional. Sempre ativo e organizado, além da boa memória que lhe permite explicar a história oral dos mercados atacadistas, se deu ao trabalho de escrever em folhas de oficio manuscritas suas lembranças de minha passagem por lá, assim é Zé Mineiro uma pessoa minuciosa e detalhista sempre disposto a ajudar quem nos transmite sua opinião em função das muitas vivências que compartimos na década de 80.

“Já naquela época lembro de Andrés por seu potencial em todos os sentidos, persuasivo, trabalhador e sabia bem o que queria, fomos companheiros nas diretorias e ele era firme na luta e defesa dos direitos dos permissionários e dos usuários em geral, sempre disposto a dar a cara e assumir de frente as reivindicações

Ao relembrar misturo nostalgia e orgulho e mesmo com tal diferença de idade, quase 15 anos, sempre tive um trato de completa amizade com Andrés e mesmo com toda sua juventude, muito brincalhão, porém de máxima seriedade quando necessário.

Considero que Andrés é um revolucionário e o admiro muito como administrador de paixões já que não há duvida o Corinthians é uma das maiores paixões dos brasileiros e tem de ter muito pulso e muita firmeza em sua personalidade para conseguir, além disso, ele sempre dizia que ia ser presidente do Corinthians e mereceu mesmo ter logrado esse objetivo que buscou”.

Além de outras funções sociais, Zé Mineiro é presidente da entidade ISA – Instituto de Solidariedade para Programas de Alimentação – fundada em 1994 e uma das primeiras no Brasil na união dos permissionários do Ceasa em combater a fome, são milhões de toneladas de alimentos que regularmente distribuem entre as famílias carentes.

Ainda consegue organizar seu tempo para exercer desde 1996 ou seja há quase 16 anos, como diretor de relações públicas da Ponte Preta, função que nos permite ainda manter contatos esporádicos já que é o responsável por receber as delegações das equipes adversárias quando visitam Campinas.

Sua paixão pelo futebol o levou como torcedor, a exceção da Copa de 2002, a estar presente em todas as Copas desde o ano 1986 no México, no ano 1998 na França sem querer nos encontramos no restaurante da Pizza Pino lugar que virou ponto de encontro da torcida verde amarela em Paris e foi uma festa esse encontro imprevisto. O mais admirável em Zé Mineiro é constatar como conserva sua vitalidade e atitude otimista ante a vida enfrentando sessões de quimioterapia para combater o câncer que lhe foi diagnosticado e que com certeza sua disponibilidade para a vida lhe fará empreender novas iniciativas também para superar esse grave contratempo.

time da Cerealista Mineiro com Neto
Time da empresa Cerealista Mineiro no qual joguei com Neto

E foi no seu time de empresa evidentemente chamado Cerelista Mineiro que joguei por um bom tempo, era tão bom que ficou apelidado de “Os imbatíveis” permanecemos invictos durante um ano. Nessa equipe completava a escalação Neto já meu amigo de Campinas e que depois se consagraria no Corinthians, aliás deve ter sido a única vez em que além de grandes amigos fomos companheiros de um mesmo time de futebol e participávamos até com sacrifício já que habitualmente era as segundas feiras das 21 as 23 horas.Tínhamos uma numerosa torcida composta em sua maioria pela ala feminina e acabávamos os jogos comemorando no bar Chopão no bairro Taquaral em Campinas, badalado e famoso bar por ser o melhor e mais gelado chopp na época e quase sempre havia vitória por comemorar.

Com Neto minha amizade nasceu em um pequeno bar situado em frente ao edifício da casa da rua José Paulino esse pequeno bar era ponto obrigatório para um rápido cafezinho matinal e uma cerveja vespertina, de quando em quando encontrava Neto já que no mesmo edifício morava sua namorada Ana, posteriormente seria sua primeira esposa, e assim fomos criando amizade iniciada no boteco e no trajeto do levador.

com Vinicius
Com Vinicius em feira comercial no Rio

Depois de casado fui trabalhar e morar no Rio, provavelmente ali vivi com minha companheira Dete os melhores anos de minha vida, boa parte deste período convivi com o amigo Vinicius Boller que descrevo no livro, porém no quesito jogador de futebol o máximo compromisso local que assumi foi me inscrever em um clube que organizava peladas aos domingos em Jacarepagua que reunia até trezentas pessoas, quando os times se formavam por ordem de chegada, depois rolava muita cerveja, churrasco e pagode durante todo domingo e vez ou outra eu aparecia por lá.

Também com o pessoal da loja que eu dirigia no Ceasa tive fortes vínculos de amizade com os funcionários, tanto Lula como Geraldinho que viera comigo desde Campinas e além de empregados eram amigos; tinha também o meu vizinho Fernando, comerciante de cocos e os vendedores da loja como Domingo, Geraldo e tantos outros que viraram amigos.

E relacionado com futebol criei forte corrente de amizade com meu concorrente Francisco Monteiro, representante da empresa Polisul e outras no ramo plástico, que coincidentemente tem o mesmo nome do empresário apelidado de Todé promotor do Showbom e que anos depois seria um dos primeiros elos que tive com Ronaldo, ele tinha uma casa em Jaconé cidade da região dos lagos pouco antes de Saquarema e uma vez por outra íamos para um churrasco e como tinham um campinho de futebol fazíamos animadas e concorridas peladas faz pouco tempo fiquei sabendo que esse meu amigo Francisco do setor de plásticos faleceu e lembrei que ele tinha outra particularidade que era sua grande semelhança com o ator e comediante Paulo Silvino.

O  mundo é uma bola

barcelona
Bandeira do Timão me acompanha por Barcelona

No ano 1984 ainda com 20 anos protagonizei uma experiencia de tentar me profissionalizar no futebol. Esse novo desafio teve um cenário internacional concretamente Barcelona, viajei para lá em um voo economico das Linhas Aéreas Paraguaias LAP, lembro até hoje que por incrivel que pareça o avião tinha goteiras o que provocou quase um estado panico entre os passageiros por temos a que fosse chuva vinda diretamente das vizinhas nuvens, não era assim a tripulação esclareceu se tratar de problemas com o ar condicionado o voo ia repleto de gente e os assentos quase não deixavam espaço entre si, pelo nome da companhia LAP até pensei que fosse o roteiro aéreo da minha familiar linha Lapa-Penha tal o aperto em que se viajava.A decisão de viver essa nova tentativa foi em parte provocada pelo meu primo Tadeo que morando na Espanha foi de visita com o amigo Antonio Bermudo que era introduzido no futebol local e viria a ser Secretario de Esportes da cidade de L’Hospitalet, ao ver-me jogar em uma pelada em Campinas gostou de meu dominio da bola e me incentivou, contando com essa boa recepção me animei a tentar a sorte no futebol catalão.

Fui admitido para treinar e fazer testes na equipe do Centre d’Esports de L´Hospitalet presidida pelo construtor David de la Cruz, equipe da segunda divisáo espanhola e que naquela temporada atuava como filial do RCD Espanyol o segundo grande clube de Barcelona, a cidade de L’Hospitalet esta situada na divisa metropolitana de Barcelona.

Lembro-me que além do futebol, aprendi muito por lá, já que o pais estava em um animado momento de transição politica, também assimilei a forte politização da rivalidade entre o Barça e o Real Madrid até pensei que era de agradecer que o futebol tivesse essa forte conotação politica, melhor disputar o território em heróicos 90 minutos em busca do dominio da bola (no caso la pelota) que se enfrentarem em uma nova guerra civil.

Os treinamentos no L´Hospitalet eram intensos e mais ainda com o frio e o calendário teimando em andar devagar pois parecia que nunca chegaria a hora do futebol para valer e sempre seria aquele corre corre sem bola com muito esforço para os exercicios fisicos. Por fim faria uma partida, estava previsto que fosse escalado para um jogo amistoso, porém algo inesperado ocorreu logo na segunda jornada da temporada oficial o sindicato, a Associación de Futbolistas Españoles deflagrou uma greve de jogadores, algo insólito e coerente com o momento politico que vivia o país, não captava muitas das razões da greve mas simpatizei plenamente com o movimento.

Os dias passavam e apressado pela saudade e também por que caminho dos 21 anos há muita pressa em finalizar etapas por isso desisti de continuar fazendo o teste e optando voltar ao Brasil. Antes disso percorri parte da França e Itália, senti a emoção ao ver monumentais obras artisticas e humanas em todo seu percursso e quem não ia se admirar e sentir uma certa vertigem em plena Firenze, senti tudo isso, senti também emoção saber que naqueles dias um outro brasileiro, o também corinthiano Sócrates estava jogando no time local da Fiorentina.

E assim ao completar cinco meses de ausencia e antes que o frio forte viesse com tudo voltei para casa e para o serviço em Campinas, me reintegrei na loja e no futebol campineiro. E continuando com minha dedicação amadora joguei com meus amigos Roberto apelidado Boquita e Nico Oya, futebol de salão no time do tradicional Clube Cultura Artística disputando a Copa Campinas e a Copa Metropolitana da região.

O bom desempenho dessa equipe teve um momento notável no ano 1985 quando a Liga Campineira de Futsal recebeu um convite para formar uma seleção e participar de um campeonato internacional em Portugal. Junto com Nico integrei na posição de ala dessa seleção, já meu amigo Boquita não pode ir pois tinha marcado seu casamento. Assim fazia minha segunda incursão em uma experiência esportiva internacional.

seleção campineira em Lisboa
Com a seleção de Campinas em Lisboa

Foram 15 dias incansáveis em disputados jogos entre Lisboa e Porto, não consigo lembrar dos detalhes e dos adversários mas em um esforço e consultando amigos fui capaz de recordar um a um, todas as pessoas que compuseram aquele time representativo da cidade em tournée por terras lusas e era uma delegação com muitos atletas os quais cito pela ordem de posições: Wagner, Tobias, Catito, Messias, Nangue, Silvio, Alexandre, Andrés, Marcos Toloto,: Nico, Edu e Mazzola e Lauredson como treinador.Por essas coincidências da vida Nico há oito anos, muito antes que eu assumisse a presidência, dispõem da franquia da escolinha Chute Inicial do Corinthians em Campinas com duas unidades e seu irmão Sandro tem igualmente duas unidades da escolinha do Palmeiras.

nico
Com meu amigo Nico situado um degrau acima de mim

Além disso Nico é pai de um filho de 12 anos de nome Fabrício, herdou a bom futebol jogando na posição de meia muito bom de bola e que, depois de aprovar na exigente peneira, joga no sub 13 do Corinthians, E com o pai dedicado, faz o percurso três vezes por semana acompanhado de Nico para os treinos porém este com sua discrição oriental nunca subiu até o quinto andar para me saudar motivo pelo qual desconhecia essa boa noticia que seu filho seja atleta corinthiano.

Andrés e Tadeo em Barcelona
Coautores do livro em Barcelona 84
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